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Edicão 90
![]() Do hot dog com Coca-Cola ao mundo globalizado A década de 60 foi notável no Brasil. Uma verdadeira explosão de criatividade na musica, no humor e na arquitetura, ocorrida na Zona Sul do Rio de Janeiro, marcava o tom de otimismo da sociedade da época. Novos movimentos sociais assombravam a classe média conservadora: o tropicalismo, o feminismo, as questões do meio ambiente, o movimento estudantil e tantos outros questionavam o acesso da população brasileira ao “American Way of Life”, ao consumismo, e à entrada do país ao rol dos países desenvolvidos com a chegada da indústria de bens de consumo, tudo entremeado com os “chiliques” dos radicais comunistas contra os anticomunistas, também radicais, importando a guerra fria para uma nação quente, ensolarada e colorida. Hot dog e a Coca-Cola eram mais que sanduíche e refrigerante, eram símbolos políticos que se ontrapunham ao acarajé e à água de coco. Diga-se que ambos eram igualmente
deliciosos. O Brasil finalmente era campeão mundial de futebol! Os gols de Pelé e Garrincha, a música de Tom Jobim, Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Caetano Veloso, a arquitetura de Oscar Niemeyer, entre tantos outros, lavavam nossa alma e assombravam o mundo com tanta criatividade e alegria. Por que desenho industrial e não design? Porque para a época de tanta exaltação nacionalista, era impróprio qualquer vocábulo estrangeiro; nos textos oficiais, hot dog não podia ser hot dog, tinha que ser cachorro quente e, cachorro quente não podia ser acompanhado de Coca-Cola, mas somente por Guaraná, e tudo era tão gostoso quanto a combinação de uns e outros. Assim sendo a expressão industrial design foi traduzida nos textos do Ministério da Educação para desenho industrial, acertadamente, segundo o lingüista nacionalista da época, das suas origens gregas: DE + SIGNO= Design, Desenho, Desígnio, Designar, “dar significado”, mas criando uma enorme confusão no mundo real: afinal desenho industrial era arte ou era técnica? Vocês já ouviram falar da expressão Geração Meia Nove? Pois é ... Éramos todos uns bandos de chatos, irritantes, debatíamos e contestávamos tudo e todos, mas certas idéias (ao menos as melhores) vingaram e desembocaram nos movimentos de proteção ambiental, na liberdade sexual e feminina e no liberalismo em geral. Cumpre lembrar que vivíamos em uma época extremamente contestatória e revolucionária, em que o desenvolvimento industrial brasileiro era bandeira governamental e consequentemente havia consistentes incentivos para o ensino técnico em detrimento do ensino de artes e ciências humanas. Frases retumbantes ecoavam nos discursos políticos da época: Para complicar mais a situação, criar mais confusão, em 1969 surgiu o primeiro modelo de currículo mínimo de desenho industrial e comunicação visual. Era um currículo em que conviviam disciplinas originárias das escolas de arte: história da arte, plástica, desenho de observação e expressão, gravura, fotografia etc., agregadas a disciplinas de caráter técnico industrial, como desenho técnico, geometria descritiva, técnicas industriais e produção etc. Tudo sem ementas ou objetivos, uma verdadeira colcha de retalhos, que, por um lado, representou a “tábua de salvação” para muitas faculdades de artes fortemente discriminadas na época. Resultado: proliferaram os cursos de Desenho Industrial e Comunicação Visual. A falta de ementas no currículo mínimo permitia que disciplinas fossem importadas diretamente dos cursos de artes plásticas e de engenharia indiscriminadamente, e ministradas da mesma forma, ementas, objetivos e estratégias, gerando uma grande confusão. Afinal o desenhista industrial (atual designer de produto) e o comunicador visual (atual designer gráfico) são técnicos ou são artistas? Para a organização departamental das universidades da época, pouco afeitas à interdisciplinaridade, isso era um caos, era imperioso definir em que departamento os cursos de desenho industrial e comunicação visual iriam ficar. Sérgio Casanova é coordenador dos cursos de design do Centro Universitário Belas Artes |
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